Tradução do blog original de Krist Novoselic, músico, ativista político e ex-baixista do Nirvana.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Krist Novoselic sobre O Movimento Progressivo, A Granja, e William Morley Bouck

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William Morley Bouck

O Movimento Progressista do começo do século 20 fez surgir muitas reformas duradouras. Entre elas as leis antitruste de Roosevelt, eleições diretas para o Senado norte-americano, muitos Estados conquistaram a Legislação Direta (o processo iniciativo), o voto feminino e as primárias públicas / nominações. (O período também experienciou o crescimento com a mais esquecida reforma eleitoral do Single Transferable Vote.)

Muitas pessoas e organizações do Estado de Washington abraçaram o Progressivisimo com fervor. A Washington State Grange [Granja do Estado de Washington) teve papel importante nesse movimento.

Fundada em 1867 durante a reconstrução do sul, os Patronos da Agricultura (Granja) foram uma organização de famílias de fazendeiros que lutavam pelos seus interesses. Coletivamente, moveram um levante contra o monopólio das estradas de ferro. A organização também se esforçou a criar o desenvolvimento de um caráter e expansão do conhecimento dos membros. A Granja foi o grande fio de instrumento ao passo que permitiu que mulheres e jovens pudessem votar como membros. E qualquer ocupação da liderança eleita estava aberta a qualquer membro. Para se proteger de ataques de espionagem, a Granja promovia reuniões fechadas e que requeriam palavras secretas para que os membros pudessem entrar.

Fazendeiros do Oregon e de Washington tinham seu próprio sistema de transporte nos rios Columbia e Willamette. A Companhia de Navegação a Vapor do Oregon dominava essas hidrovias. Para combater esse monopólio do transporte, clubes de fazendeiros foram se organizando. Mais tarde isso culminaria na criação das Granjas. A Washinton Grange foi fundada em 10 de setembro de 1989: dois meses antes do Território de Washington tornar-se um Estado.

Carey B. Kegley serviu como Mestre do Estado (ou Presidente) de 1905 a 1917. Um progressista nato, fez inimigos que pertenciam ao grupo de conservadores do Estado de Washington; um grupo que ele ridicularizou como sendo intitulado de 'Fish, Sawdust and Whiskey Gang' [Gangue do Peixe, Açúcar e Uísque]. Kegley também irritava a liderança da Ganja Nacional conservadora.

O Presidente Kegley acabou falecendo dentro de seu próprio escritório. Como Inspetor (que equivale ao cargo de vice-presidência), William Morley Bouck tornou-se o grande atuante na liderança do estado; à essa altura a organização já contava com cerca de 15 mil membros.

Bouck era um homem fiel a Deus. Fazendeiro de Sedro-Wooly, era um Populista empenhado, Progressista da era de Bull Moose, um ávido e prematuro apoiador do socialista Nonpartisan League, e também um membro da Western Federation of Miners [Federação dos Mineiros do Oeste].

A instituição conservadora, cuidadosamente almejada por Kegley, se aproveitou da ascensão de Boucks para investigar e depreciar a Granja. Isso fez surgiu um momento apropriado para uma guerra; houve alegações de que o novo Mestre era um Pró-Alemão, Bolchevista.

Em 1918, durante a convenção estatal em Walla Walla, a Granja literalmente correu para fora da cidade!

A imprensa local e grupos comerciais ficaram preocupados com a associação de Bouck a uma Liga Não-partidária. Antes da convenção, a Employers Association of Eastern Washington [Associação dos Trabalhadoras do Leste de Washington] enviou um representante que alertou as empresas privadas sobre a ameaça da Liga .

Os delegados da Granja chegaram em Walla Walla para uma frígida recepção. A convenção ocorreu numa escola alugada. Em sua carta aos delegados, Bouck demandava que o governo continuasse os tempos de guerra contra o monopólio das estradas de ferro como um prelúdio para a apropriação pública do transporte e energia. Se lembrando da Primeira Guerra Mundial, ele lamentou sobre os "filhos que ficaram na Europa". Ele também foi firme contra a corrupção e investigou as atividades de compra e venda da cooperação.

A impresa local aumentou seus comentários feitos durante o discurso. O Boletim de Walla Walla desonrou Bouck como sendo um antipatriótico, e um radical Wobbly. Mas muitos dos membros da Granja tiveram filhos que lutaram na Primeira Guerra e que compraram Obrigações de Guerra. Estavam ainda juntando dinheiro para a convenção local da Cruz Vermelha. Um zelador que trabalhava na escola interrompeu a reunião ao dizer que havia uma regra contra a coleta de dinheiro no edifício. Indignada, a Granja saiu da escola cantando canções patriotas enquanto coletavam doações do lado de fora. (contando com os habitantes da região, eles enviaram a quantia arracada de $115 para a Cruz Vermelha nacional.)

A convenção continuou nos próximos dias e delegados elegeram Bouck como Mestre. Depois do elogio a Kegley, Ray McKaig, da Liga Não-partidária, fez um discurso em relação às suas transformações radicais na Dakota do Norte. Reagindo a esses dois episódios, o Boletim circulou denunciando a Granja como uma entidade desleal e não-Americana. A direção da escola repentinamente disse à Granja que eles teriam que deixar de realizar suas reuniões no local. Mais uma vez, membros deixaram a escola cantando "My County Tis of Thee". Havia um vigia local na multidão olhando com atenção para McKaig e Bouck. Os dois sumiram sem serem vistos.

Viajando pelo Estado, Bouck continuou seu discurso contra a extorsão que existia por causa da guerra.

No final daquele mês, na Granja, ele chamou a atenção sobre a elevação dos impostos sobre os ricos para financiar o esforço da guerra. Ele se opôs a hipotecar a guerra pela venda de Obrigações de Liberdade e se preocupou com o fato de a guerra deixar um défit que excederia os $100 bilhões.

Se ouvia gemidos, suspiros e uma gritaria no fundo da sala. Enquanto dirigia para Burlington, todos os quatro pneus do automóvel de Bouck furaram. Claro que se tratava de sabotagem. Especulava-se que os causadores da desordem também testificaram para um grande júri secreto em Seattle sobre as notas e observações de Bouck.

Em agosto, Bouck foi preso e indiciado por violar a lei federal do Ato de Espionagem de 1917, então recém criada. O Departamento de Justiça nomeou Clarence L. Reames como procurador especial para trabalhar em todos os casos relacionados à guerra. Esse procurador americano, que era de Portland, foi escolhido justamente pela sua experiência em lidar com os "teoristas de olhos violentos" do oeste de Washington.

O estado e a Granja nacional se juntaram a favor de Bouck. Pagaram sua fiança, que custou $5000, e cobriram todas as despesas legais. Até os populares se juntaram à empreitada.

Entretanto, alguém do Departamento de Justiça ficou preocupado com a fervorosa prossecução que Reames havia desenvolvido em relação a Bouck. John Lord O'Brian, procurador especial dos Estados Unidos, juntamente com o também procurador e congressista William E. Humphrey, impuseram limitações a Reames. Ambos apresentaram queixas ao procurador general Thomas Gregory. A investigação também revelou que haviam testemunhas declarando que não havia nenhum sentimento de anti-patriotismo na Granja e que Bouck algumas vezes prendia um broche da Cruz Vermelha e do Liberty Bond [Obrigações de Liberdade] em sua lapela. Alguns declararam que haviam visto Bouck e sua esposa comprando Obrigações de Liberdade e War Saving Stamps. [selos postais com temáticas patrióticas, cuja venda tinha como intuito captar fundos para financiar a guerra.]

Com a persistência de O'Brian e com o fim da guerra, Reames desistiu do caso.

Em 1920 Bouck ajudou a fundar o partido Farmer-Labor, de Washington. Ele concorreu a uma vaga no Congresso americano, mas perdeu a eleição -- obteve 40% dos votos em seu distrito. Eleitores de Washington elejeram três candidados do Farmer-Labor para a legislação estadual naquele ano.

Na convenção estadual da Granja, realizada em Colville, em 1921, o Mestre Bouck fez o discurso mais radical de sua vida -- continou a condenar o militarismo, dizendo, "Vamos nos organizar contra o terror do capitalismo!" e estimulava o não-pagamento de impostos em protesto aos gastos militares. Ele defendia mais domínio público e clamava por "acabar para sempre com a competição pelo lucro".

Estas fortes declarações dificilmente não foram noticiadas. Antes, Bouck teve que se desculpar à Granja por "trazer o partidarismo". Esse discurso foi o seu último último. Bouck foi suspenso da Granja estadual pela organização nacional. Logo ele deixou a organização. Como resultado, os membros estaduais da Granja caíram de 21 para 15 mil. 62 salas de reuniões foram fechadas.

Sempre destemido, Bouck fundou uma nova Granja: a Western Progressive Granje [Granja Progressista do Oeste]. A Granja original (estadual e nacional) conseguiu ficar com o nome "Granja", através de uma ação na justiça. A nova organização teve que adotar um novo nome, e se tornou, então, a Western Progressive Farmers [Fazendeiros Progressistas do Oeste]. Entre suas ideologias, encontravam-se princípios anti-capitalistas e cristianismo evangélico. As reuniões aconteciam em locais de trabalho dos membros ou ao ar livre, como antigamente. Uma das canções favoritas dos membros, sempre cantada durante os eventos, era a descarada The Bolshevik Farmers They Call Us [De Fazendeiros Bolchevistas Eles Nos Chamam], cantada ao ritmo de My Bonnie Lies Over the Ocean;

The Bolshevik farmers they call us,
The Bolshevik farmers may be,
The Bolshevik farmers they call us,

Yet nary a little care we.

O Western Progressive Farmers acabou se enfraquecendo. William Morley Bouck faleceu em 1945.

Com um novo Mestre, a Granja continuou exercendo sua força em Washington. Através da liderança de Albert Goss, ela conquistou um objetivo de Kegley / Bouck. Em 1930, os 23 mil membros da organização foram os grandes instrumentos que deram passagem à iniciativa de criar o sistema Public Utility District [cuja missão é dar apoio, proteção e desenvolver a habilidade de seus membros em oferecer, sem fins lucrativos, serviços utilitários controlados localmente para a população de Washington]. A Granja, juntamente com a maioria dos eleitores, conseguiu com êxito socializar os serviços de eletricidade e água encanada em boa parte do Estado de Washington.

Fontes usadas na elaboração deste artigo:

Washington Grangers Celebrate A Century. Gus Norwood 1989

Farmer Labor Insurgency in Washington State. Carlos A. Schwantes Pacific Northwest Quarterly January 1985

The Ordeal of W.M. Bouck, 1919-1919: Limits to the Federal Suppresion of Agrarian Dissidents. Carlos A. Schwantes Agricultural History July 1985

Making the World Unsafe For Democracy: Vigilantes, Grangers and the Walla Walla 'Outrage' of June 1918. Carlos A. Schwantes Montana The Magazine of Western History January 1981

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