Krist Novoselic: Controvérsia & Consciência

Tradução do blog original de Krist Novoselic, músico, ativista político e ex-baixista do Nirvana.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Música é um Milagre


Andei lendo os comentários sobre o meu artigo sobre video-games, Rock Band e Guitar Hero, e segui a dica do colega McKagan: andei lendo alguns papos que circulam pela Web.


Como disse em meu último artigo sobre esses jogos, eles são uma boa coisa. De acordo com a Network World, "muitos desses gamers disseram que a experiência com os jogos trazem alguma consequência positiva, como a vontade de pesquisar sobre música ou comprar discos ou canções pela internet."

Mas o que me marcou ao ler os comentários foi que muitos compararam a habilidade técnica de tocar um instrumento de verdade e o instrumento de plástico. De fato, os games fazem com que você tenha uma cordenação visual e manual. Mas e sobre a mágica? Não vi nenhum comentário falando sobre a magia que é a música. Habilidade técnica é importante, mas você não necessita de uma certa competência para capturar a imaginação de um ouvinte.

Primeiramente, o que é música? Por que nós reagiamos a certos tons e ritmos? É um milagre que nós seres humanos desfrutamos. Quando toco minhas canções favoritas, ou ligo o meu aparelho de som, fico imaginando - o que meu cachorro ouve? Tenho medo de que ele ouça apenas barulho, berros e ruídos.

Por outro lado, sou movido por um som mais excitante. E um grande solo de guitarra ou linha de baixo não precisa ser tenicamente proficiente. Ouça o guitarrista Ace Freehly na música Strange Ways, do Kiss. Ace manda um som insano, que vai além do sustaining ou de dar bendings nas cordas.

O Flipper acaba de re-lançar seus três primeiros discos. (Escrevi no encarte que acompanha o Generic.) Fico pensando, e se alguma faixa for transcrita para os games? Como a guitarra de Ted Falconi seria transferida para esse formato? Talvez, ao invés das notas caírem na tela, existiria alguma coisa indeterminada que pulsaria na tela, para que o jogador tocasse a guitarrinha. Ted é o Jimi Hendrix da guitarra rítmica. Seu estilo é uma barragem atonal, mas há um jeito maestral e único de fazer a sua loucura toda. Fui sortudo o bastante por poder tocar com ele, e observei sua ténica única de muito perto. Pode chegar de repente, forte como uma onda gigante, mas há também uma sutileza que vale a pena ouvir. (O novo disco do Flipper sairá em Maio, a propósito, com seu colunista no baixo. Jack Endino gravou o álbum, e, como você pode imaginar, a guitarra é o nosso forte.)

É alquimia. A força mágica da música é como transformar chumbo em ouro. E essa não é uma analogia acidental. Muitos músicos talentosos saem do nada. A história nos mostra como grandes talentos são reconhecidos pela instituição que é a música e como artistas novatos são elevados a assinarem algum contrato sujo.

A indústria da música está apenas engarrafando a magia e alguém precisa produzir seus ovos de ouro.

Agora existem esses games, e eles só fazem sentido porque a música avançou a uma nova tecnologia. Les Paul inventou as modernas guitarras elétricas e estas nos deram os Beatles, Led Zeppelin, entre outros.

Na música eletrônica,o computador é a ferramenta que fabrica sons que nos instigam. Eu amo os sons do Muslimgauze, Crystal Method, Chemical Brothers, Bjork, e tantos outros que usam um mouse um teclado ao invés da guitarra de verdade.

Alguma espécie de faísca instiga o artista e aquele sentimento/magia é transmitida ao ouvinte. Aí vai um trocadilho, mas que é a pura verdade: aí, você não consegue colocar o dedo!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Krist Novoselic: Todos nós devemos algo aos Melvins













A coluna de Krist Novoselic é publicada toda terça no Daily Weekly. Ouça uma mp3 de Buzz Osbourne, dos Melvins, Dave Grohl e Novoselic tocando juntos no Crocodile em 1992.


Para uma banda com 25 anos de existência, o novo álbum dos Melvins, Nude With Boots, mostra que o grupo está mais forte do que nunca. Quero falar a vocês um pouco sobre a minha experiência com os Melvins e do quanto o novo disco é fodido!

Conheci Buzz em 1983. Eu trabalhava no Taco Bell quando ele e Matt Lukin apareceram para dar um alô ao meu colega de trabalho, Bill. Bill havia sido expulso da escola de Aberdeen por explodir um encanamento com uma bomba. Ele foi colega de classe de Buzz e Matt numa escola próxima, a de Montesano.

Nossos dois visitantes estavam vestidos diferentes dos adolescentes comuns da época - Buzz usava um sobretudo velho e Matt vestia uma esfarrapada camisa de flanela e tinha no pulso uma munhequeira feita de ralador de queijo.

Fui assolado pela primeira onda do punk ainda no final dos anos 1970, mas foram os Melvins que me apresentaram ao American Hardcore.

Buzz me emprestou alguns discos do Black Flag, Flipper, Butthole Surfers e Minor Threat. Eu era um verdadeiro entusiasta desse novo mundo musical. E Buzz ficou muito feliz por compartilhar com alguém que não desprezou aquele som só porque era punk rock. A maioria das pessoas odiava o punk por alguma outra maneira, e não porque ele tinha algo de mau, esquisito e errado em sua essência.

O baterista dos melvins, Mike Dillard, se viu em obrigações pessoais e deixou a banda. Eu conhecia um grande baterista chamado Dale que estava a uns três anos atrás de mim na escola. Levei Buzz para conhecer Dale e apresentei um ao outro. Eles começaram a tocar juntos e levaram a coisa a sério.

Os pais de Dale incentivavam a banda e deixavam os Melvins ensaiarem no quarto dos fundos da casa. Você conseguia ouvir o som alto quarteirões a distância. Isso, obviamente, atraía toda a garotada, e a entrada de trás da casa virou um ponto de encontro. Lá ficava um rapaz chamado Kurt, que queria formar uma famosa banda originária de Aberdeen.

Os Melvins tocaram em lugares por todo o oeste de Washinton, e houve uma oportunidade em que eles puderam sair em uma turnê de verdade. Dale foi à escola conversar com seu orientador vocacional para pedir uns conselhos sobre sair em turnê. Ele olhou para suas notas. Viu que Dale tinha três A's nas aulas de música. Nas outras matérias, acho que ele tinha alguns D's. O orientador disse para botar o pé na estrada!

Estive numa turnê dos Melvins que passou pelos estados de Nevada e da Califórnia. (Eu sou cara que tirou a foto que estampa seu primeiro single de 7 polegadas.)

Todos acabaram deixando Aberdeen. Matt se juntou ao Mudhoney. Buzz e Dale se mudaram para San Francisco.

A partir de 1988, a cena Grunge de Seattle começava a fazer barulho. Mesmo que tenham partido de Washington, os Melvins deixaram um legado que os estabeleciam como a primeira banda Grunge. Toda banda de Seattle do final dos anos 80 deve algo aos Melvins - uma banda que diminuía o tempo das músicas e tocava riffs sujos.

Certa vez em 1990, Kurt Cobain e eu estávamos dirigindo de Los Angeles para Washington. Tivemos a oportunidade de parar em San Francisco para ver nossos compadres dos Melvins, e mencionamos que estávamos sem baterista.

A banda Scream tocava em North Beach e todos nós fomos ver o show. Buzz disse que tínhamos que ver o excelente baterista que tinham. O Scream tocou um ótimo set e conhecemos a banda. Buzz nos apresentou ao seu baterista, David Grohl.

Os Melvins sempre se mantiveram fiéis a suas visões para o rock. É um metal sofisticado, adulterador, mas que tem muito das lições do punk. E isso mostra. Eles podem realmente sair disso, mas há um complexo método para a loucura.

Hoje meu CD favorito é o Nude With Boots. É um dos discos que preciso ouvir todos os dias.

A arte das músicas é genuína do começo a fim. O disco começa com "The Kicking Machine", que é levada por um grande riff de guitarra. "Billy Fish" é uma ótima música. Eu a ouvi pela primeira vez numa passagem de som dos Melvins em Londres. É uma daquelas músicas que colam na sua cabeça instantaneamente.

Eles parecem ter invocado Ennio Morricone na faixa "Dies Iraea". (E os Melvins fazem um cover ao vivo de "Magic and Ecstasy", trilha de Morricone de "O Exorcista 2: O Herege".)

Em Nude With Boots, os Melvins contam com uma ajuda especial. Coady Willis e Jared Warren, da banda Big Business, de Washington, contribuem para o baixo e bateria.

Quando digo na bateria, digo que Coady e Dale tocaram um junto do outro. Pude ver essa combinação na turnê do Melvins/Flipper, no Reino Unido e Irlanda, em 2007. Não se trata de duas baterias separadas, os dois tocam em sincronia num kit colossal que eu nunca tinha visto antes.

Toquei com o Crover e sua bateria aparece no primeiro disco do Nirvana, Bleach. Ele é um baterista que bate forte, e com Coady ao seu lado, parece que uma besta caminha sobre a Terra.

O som da guitarra de Buzz em Nude está um pouco limpo do que nos discos anteriores. Posso ouvir um pouco de KISS em seu tom. Buzz tem uma velha Les Paul sunburst desde que eu o conheço, com um adesivo que veio junto com o álbum Rock and Roll Over, do KISS, colado abaixo da ponte. Ouvindo ao Nude posso imaginar o que o KISS soaria depois do Destroyer caso eles entrassem num clima sombrio.

Mas os Melvins são únicos até com eles mesmos. Eles têm um som próprio e visão para como agitar o mundo. Nude With Boots é bom de ouvir do começo ao fim. É ótimo ver que o rock pesado está firme e forte em pleno século 21.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Velhas canções numa nova tela



















Krist Novoselic & Jack Endino - Ao vivo no Coast Community, na transmissão do Radio Benefit. A coluna de Krist Novoselic é publicada toça Terça no The Daily Weekly.

O Rock and roll já foi considerado morto incontáveis vezes. Após sofrer alguma baixa, o rock normalmente retorna numa nova onda, cheia de bandas novas e sons diferentes. As coisas são diferentes hoje em dia: o Rock encontrou nova vida nos video-games, e o fenômeno está levando a música para um revival de bandas que estão (ou estavam) por aí há muito tempo.

Minha primeira experiência com os video-games aconteceu quando eu tinha uns 10 anos de idade. Era um jogo chamado Pong. O desafio era manter a bolinha viva na tela usando duas peças retangulares que ficavam cada uma num canto da tela.

No colegial, caí de cara na loucura dos fliperamas durante o começo dos anos 80. Um jogo que gostava muito era o Asteroids (e seu sucessor, Asteroids Deluxe). Eu era muito bom em pilotar aquele navezinha e destruir aqueles asteróides, pires voadores e outras coisas flutuantes que ameaçavam minha existência no espaço. (Bem, o espaço virtual eu podia alcançar com cada uma das moedas de 25 centavos que funcionavam com fichas.)

Mais recentemente, estava andando num shopping center quando me deparei com o jogo Rock Band 2. Entrei na loja e arrisquei uma jogatina.

Eu conhecia o Rock Band, já que o Nirvana tem algumas canções no jogo. Mas nunca tinha jogado, então lá fui eu. Fiquei fuçando nas opções do jogo e achei a música "In Bloom". Peguei aquele controle em forma de guitarra e tentei tocar.

Eu sabia a linha do baixo, claro, mas não consegui tocá-la nesse novo e diferente jeito de tocar.

O jogo me lembrou o Space Invaders. Tentei apertar os botões que correspondiam as notas que caíam na tela, mas mal consegui.

Enquanto isso, havia um garotinho me olhando brincar com o jogo. Fiquei meio constrangido e me livrei do controle. Dei a ele, que continuou tocando a música, e muito bem! Ele não fazia ideia de que eu havia criado o que ele estava tocando, e não disse a ele.

A vida continua: eu segui meu passeio para comprar alguns materiais de pintura, mantimentos e outras coisas da loja.

Desconsiderando minha experiência como jogador, estou adorando o Rock Band. Ao invés de trocar arrquivos, as pessoas estão comprando músicas novamente! HA!!!

Colocando essa questão de lado, eu gosto de como os jogos fazem os jogadores se concentrarem em alguma coisa da música. Quando ouço música, geralmente me apego às linhas de baixo. Com o Rock Band, você pode fazer isso, mas também pode ver o processo das notas.

Música é uma coisa viva. É divertido redescobrir canções em diferentes formas. Por exemplo, ouvir o álbum Love, de 2006 dos Beatles, me fez sentir que eu ouvia aquele grupo sensacional pela primeira vez! Love faz os instrumentos que estavam apagados na mixagem original soarem fortes, vivos.

Remixagens eletrônicas também podem resultar numa completa reinvenção da música. (A propósito - será que podemos ter mais música eletrônica no rádio?)

Boa música, bons filmes, pinturas, livros e outras formas de arte te colocam dentro dela. A excitação e força do rock se adapta bem à dinâmica desse novo mundo criado pelos video-games. O universo virtual é interativo, nos oferece sensações de que é real. Keep on rocking in the free world!!!!!!!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sobre o blog - "Krist Novoselic: Controvérsia e Consciência"

É com enorme satisfação que acontece o lançamento em português do blog que Krist Novoselic, músico, ativista político e ex-baixista do Nirvana, sustenta originalmente no site The Daily Weekly, página de blogs pertencente ao Seattle Weekly, publicação que existe na cidade desde 1976 trazendo eminência, um jornalismo atrativo que expõe as más condutas dos funcionários públicos municipais, música, artes e que celebra a magia por trás da cortina cívica.

Novoselic escreve em seu blog, "Contention & Conscious", todas as terças sobre música, política e assuntos pertinentes ao seu cotidiano e ao cotidiano norte-americano e mundial. Pretende-se que a tradução dos posts originais de Krist aconteçam momentos depois de uma nova coluna, mas perceba que a tradução das colunas está acontecendo de maneira cronológica, respeitando as publicações originais, de modo que pode demorar um pouco para que o blog em português tenha pouca ou nula defasagem em relação ao original.

A intenção da criação do blog traduzido para o português é disseminar os ideais e as experiências de Krist Novoselic. Lembre-se: "vamos consertar essa democracia quebrada"!

Obrigado e boa leitura.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Krist Novoselic: Eleições Não-Partidárias Para King County?

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Imagem retirada de um anúncio publicado na revista Live, pelo ano de 1947

Pete Von Reichbauer, vereador do Condado, está propondo mudar as eleições do King County para o sistema não-partidário.

Ele declarou ao Seattle Times que o sistema de eleição não partidário "irá tornar as partições eleitas mais acessíveis", e acrescentou, "com a mudança, as eleições serão mais disputadas". Von Reichbauer, eleito como Republicano, acusou algumas alas do partido de "testes de ternassol" conforme freiam a competição.

Qualificando ou Nomeando as Primárias?

A proposta é para substituir a atual nomeação das primárias por uma qualificação das primárias.

The former is when the state controls a political party's nomination process. The public pays for and administers the internal function of a private organization. This is known in Washington State as the Pick-A-Party primary.

Nearly a century ago, most states took control over nominations to remedy party boss / political machine domination of elections.

I mentioned public nominations and other election reforms of the early 20th century in my last post. I overlooked a widespread effort from that era: non-partisan elections.

Non-partisan elections fall under the qualifying primary system. With this type of election, all candidates can appear on a primary ballot that's devoid of any party designation. (There's no little D or R or whatever next to the candidates' name.) After votes are counted, the Top-Two candidates qualify to go onto the general election.

Same Old — Same Old

Washington State has had local non-partisan elections for decades. (I refer to a recent one in a prior post.) Local elections are mostly low turnout affairs with many uncontested or uncompetitive races on the ballots.

In 2007, partisan elections for King County Council were, without exception, either uncontested or uncompetitive.

Taking the current local election dynamic in consideration, with a non-partisan King County Council, it's safe to say most of the established incumbents would still run unopposed or have token challengers.

However, in countywide races like the executive position, or on the trending competitive eastside, there can be more competition. Then it's almost certain only a Republican and Democrat will square off in the Top-Two. The two major parties could still support their candidates. They'll collect money, coordinate volunteers and buy media. The only place where they will not be is on the ballot as a party affiliation cue.

Real Competition

The Times said that Pete Von Reichbauer, doesn't want to wear either party's label when he runs for reelection. If that's the case, he should run as an independent!

Instead of a useless change of the election system for King County, an independent candidacy can actually foster competition. In a three-way race, a candidate needs only 34% of the vote to get elected in the general. This lower threshold is a reasonable expectation for an experienced public servant like Mr. Reichbauer.

From a partisan perspective, increasing competition isn't necessarily better. If Pete Von Reichbauer ran as an Independent, Republicans would still have to run a candidate to protect what has traditionally been their district. Recognizing an opening, Democrats would run their candidate in prospect of the conservative vote diluting between the former Republican Independent and the proper Republican candidate. Considering the Republican's current ebb, another loss on the eastside of King County, to either an Independent Reichbauer or Democrat, would not look good.

Therefore, I won't hold my breath on an independent candidacy.

Some are cynical about the non-partisan proposal. They say the Republicans hope to gain in King County elections for the long run. Somehow, in elections with open seats, the lack of party identification on the ballot will make King County Council races competitive.

All Party's Lose

If it gets on the ballot, it's highly likely that King County voters will approve the change to non-partisan elections. The Pick-A-Party primary is very unpopular. The two major parties are perceived as foisting their system on voters. Regardless of any debate over the merits of change, if only in spite, antagonized voters will gladly zap party labels off the ballot.


Addition:

It has been brought to my attention, from a friendly readers comment on David Postman's Blog, that my geography is off. I have always thought of places like Auburn as east King County. But maybe I'm wrong on that? And sorry to the Federal Way folks! Also, my thinking lumps together districts 3, 6, 7 and 9: the mostly eastern part of the county which is held by the four Republicans on the council. Perhaps the term suburban would have worked better than eastside. Also, thanks to David Postman for the props!!!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Krist Novoselic sobre O Movimento Progressivo, A Granja, e William Morley Bouck

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William Morley Bouck

O Movimento Progressista do começo do século 20 fez surgir muitas reformas duradouras. Entre elas as leis antitruste de Roosevelt, eleições diretas para o Senado norte-americano, muitos Estados conquistaram a Legislação Direta (o processo iniciativo), o voto feminino e as primárias públicas / nominações. (O período também experienciou o crescimento com a mais esquecida reforma eleitoral do Single Transferable Vote.)

Muitas pessoas e organizações do Estado de Washington abraçaram o Progressivisimo com fervor. A Washington State Grange [Granja do Estado de Washington) teve papel importante nesse movimento.

Fundada em 1867 durante a reconstrução do sul, os Patronos da Agricultura (Granja) foram uma organização de famílias de fazendeiros que lutavam pelos seus interesses. Coletivamente, moveram um levante contra o monopólio das estradas de ferro. A organização também se esforçou a criar o desenvolvimento de um caráter e expansão do conhecimento dos membros. A Granja foi o grande fio de instrumento ao passo que permitiu que mulheres e jovens pudessem votar como membros. E qualquer ocupação da liderança eleita estava aberta a qualquer membro. Para se proteger de ataques de espionagem, a Granja promovia reuniões fechadas e que requeriam palavras secretas para que os membros pudessem entrar.

Fazendeiros do Oregon e de Washington tinham seu próprio sistema de transporte nos rios Columbia e Willamette. A Companhia de Navegação a Vapor do Oregon dominava essas hidrovias. Para combater esse monopólio do transporte, clubes de fazendeiros foram se organizando. Mais tarde isso culminaria na criação das Granjas. A Washinton Grange foi fundada em 10 de setembro de 1989: dois meses antes do Território de Washington tornar-se um Estado.

Carey B. Kegley serviu como Mestre do Estado (ou Presidente) de 1905 a 1917. Um progressista nato, fez inimigos que pertenciam ao grupo de conservadores do Estado de Washington; um grupo que ele ridicularizou como sendo intitulado de 'Fish, Sawdust and Whiskey Gang' [Gangue do Peixe, Açúcar e Uísque]. Kegley também irritava a liderança da Ganja Nacional conservadora.

O Presidente Kegley acabou falecendo dentro de seu próprio escritório. Como Inspetor (que equivale ao cargo de vice-presidência), William Morley Bouck tornou-se o grande atuante na liderança do estado; à essa altura a organização já contava com cerca de 15 mil membros.

Bouck era um homem fiel a Deus. Fazendeiro de Sedro-Wooly, era um Populista empenhado, Progressista da era de Bull Moose, um ávido e prematuro apoiador do socialista Nonpartisan League, e também um membro da Western Federation of Miners [Federação dos Mineiros do Oeste].

A instituição conservadora, cuidadosamente almejada por Kegley, se aproveitou da ascensão de Boucks para investigar e depreciar a Granja. Isso fez surgiu um momento apropriado para uma guerra; houve alegações de que o novo Mestre era um Pró-Alemão, Bolchevista.

Em 1918, durante a convenção estatal em Walla Walla, a Granja literalmente correu para fora da cidade!

A imprensa local e grupos comerciais ficaram preocupados com a associação de Bouck a uma Liga Não-partidária. Antes da convenção, a Employers Association of Eastern Washington [Associação dos Trabalhadoras do Leste de Washington] enviou um representante que alertou as empresas privadas sobre a ameaça da Liga .

Os delegados da Granja chegaram em Walla Walla para uma frígida recepção. A convenção ocorreu numa escola alugada. Em sua carta aos delegados, Bouck demandava que o governo continuasse os tempos de guerra contra o monopólio das estradas de ferro como um prelúdio para a apropriação pública do transporte e energia. Se lembrando da Primeira Guerra Mundial, ele lamentou sobre os "filhos que ficaram na Europa". Ele também foi firme contra a corrupção e investigou as atividades de compra e venda da cooperação.

A impresa local aumentou seus comentários feitos durante o discurso. O Boletim de Walla Walla desonrou Bouck como sendo um antipatriótico, e um radical Wobbly. Mas muitos dos membros da Granja tiveram filhos que lutaram na Primeira Guerra e que compraram Obrigações de Guerra. Estavam ainda juntando dinheiro para a convenção local da Cruz Vermelha. Um zelador que trabalhava na escola interrompeu a reunião ao dizer que havia uma regra contra a coleta de dinheiro no edifício. Indignada, a Granja saiu da escola cantando canções patriotas enquanto coletavam doações do lado de fora. (contando com os habitantes da região, eles enviaram a quantia arracada de $115 para a Cruz Vermelha nacional.)

A convenção continuou nos próximos dias e delegados elegeram Bouck como Mestre. Depois do elogio a Kegley, Ray McKaig, da Liga Não-partidária, fez um discurso em relação às suas transformações radicais na Dakota do Norte. Reagindo a esses dois episódios, o Boletim circulou denunciando a Granja como uma entidade desleal e não-Americana. A direção da escola repentinamente disse à Granja que eles teriam que deixar de realizar suas reuniões no local. Mais uma vez, membros deixaram a escola cantando "My County Tis of Thee". Havia um vigia local na multidão olhando com atenção para McKaig e Bouck. Os dois sumiram sem serem vistos.

Viajando pelo Estado, Bouck continuou seu discurso contra a extorsão que existia por causa da guerra.

No final daquele mês, na Granja, ele chamou a atenção sobre a elevação dos impostos sobre os ricos para financiar o esforço da guerra. Ele se opôs a hipotecar a guerra pela venda de Obrigações de Liberdade e se preocupou com o fato de a guerra deixar um défit que excederia os $100 bilhões.

Se ouvia gemidos, suspiros e uma gritaria no fundo da sala. Enquanto dirigia para Burlington, todos os quatro pneus do automóvel de Bouck furaram. Claro que se tratava de sabotagem. Especulava-se que os causadores da desordem também testificaram para um grande júri secreto em Seattle sobre as notas e observações de Bouck.

Em agosto, Bouck foi preso e indiciado por violar a lei federal do Ato de Espionagem de 1917, então recém criada. O Departamento de Justiça nomeou Clarence L. Reames como procurador especial para trabalhar em todos os casos relacionados à guerra. Esse procurador americano, que era de Portland, foi escolhido justamente pela sua experiência em lidar com os "teoristas de olhos violentos" do oeste de Washington.

O estado e a Granja nacional se juntaram a favor de Bouck. Pagaram sua fiança, que custou $5000, e cobriram todas as despesas legais. Até os populares se juntaram à empreitada.

Entretanto, alguém do Departamento de Justiça ficou preocupado com a fervorosa prossecução que Reames havia desenvolvido em relação a Bouck. John Lord O'Brian, procurador especial dos Estados Unidos, juntamente com o também procurador e congressista William E. Humphrey, impuseram limitações a Reames. Ambos apresentaram queixas ao procurador general Thomas Gregory. A investigação também revelou que haviam testemunhas declarando que não havia nenhum sentimento de anti-patriotismo na Granja e que Bouck algumas vezes prendia um broche da Cruz Vermelha e do Liberty Bond [Obrigações de Liberdade] em sua lapela. Alguns declararam que haviam visto Bouck e sua esposa comprando Obrigações de Liberdade e War Saving Stamps. [selos postais com temáticas patrióticas, cuja venda tinha como intuito captar fundos para financiar a guerra.]

Com a persistência de O'Brian e com o fim da guerra, Reames desistiu do caso.

Em 1920 Bouck ajudou a fundar o partido Farmer-Labor, de Washington. Ele concorreu a uma vaga no Congresso americano, mas perdeu a eleição -- obteve 40% dos votos em seu distrito. Eleitores de Washington elejeram três candidados do Farmer-Labor para a legislação estadual naquele ano.

Na convenção estadual da Granja, realizada em Colville, em 1921, o Mestre Bouck fez o discurso mais radical de sua vida -- continou a condenar o militarismo, dizendo, "Vamos nos organizar contra o terror do capitalismo!" e estimulava o não-pagamento de impostos em protesto aos gastos militares. Ele defendia mais domínio público e clamava por "acabar para sempre com a competição pelo lucro".

Estas fortes declarações dificilmente não foram noticiadas. Antes, Bouck teve que se desculpar à Granja por "trazer o partidarismo". Esse discurso foi o seu último último. Bouck foi suspenso da Granja estadual pela organização nacional. Logo ele deixou a organização. Como resultado, os membros estaduais da Granja caíram de 21 para 15 mil. 62 salas de reuniões foram fechadas.

Sempre destemido, Bouck fundou uma nova Granja: a Western Progressive Granje [Granja Progressista do Oeste]. A Granja original (estadual e nacional) conseguiu ficar com o nome "Granja", através de uma ação na justiça. A nova organização teve que adotar um novo nome, e se tornou, então, a Western Progressive Farmers [Fazendeiros Progressistas do Oeste]. Entre suas ideologias, encontravam-se princípios anti-capitalistas e cristianismo evangélico. As reuniões aconteciam em locais de trabalho dos membros ou ao ar livre, como antigamente. Uma das canções favoritas dos membros, sempre cantada durante os eventos, era a descarada The Bolshevik Farmers They Call Us [De Fazendeiros Bolchevistas Eles Nos Chamam], cantada ao ritmo de My Bonnie Lies Over the Ocean;

The Bolshevik farmers they call us,
The Bolshevik farmers may be,
The Bolshevik farmers they call us,

Yet nary a little care we.

O Western Progressive Farmers acabou se enfraquecendo. William Morley Bouck faleceu em 1945.

Com um novo Mestre, a Granja continuou exercendo sua força em Washington. Através da liderança de Albert Goss, ela conquistou um objetivo de Kegley / Bouck. Em 1930, os 23 mil membros da organização foram os grandes instrumentos que deram passagem à iniciativa de criar o sistema Public Utility District [cuja missão é dar apoio, proteção e desenvolver a habilidade de seus membros em oferecer, sem fins lucrativos, serviços utilitários controlados localmente para a população de Washington]. A Granja, juntamente com a maioria dos eleitores, conseguiu com êxito socializar os serviços de eletricidade e água encanada em boa parte do Estado de Washington.

Fontes usadas na elaboração deste artigo:

Washington Grangers Celebrate A Century. Gus Norwood 1989

Farmer Labor Insurgency in Washington State. Carlos A. Schwantes Pacific Northwest Quarterly January 1985

The Ordeal of W.M. Bouck, 1919-1919: Limits to the Federal Suppresion of Agrarian Dissidents. Carlos A. Schwantes Agricultural History July 1985

Making the World Unsafe For Democracy: Vigilantes, Grangers and the Walla Walla 'Outrage' of June 1918. Carlos A. Schwantes Montana The Magazine of Western History January 1981

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Krist Novoselic: Flipper Still Rules, OK???

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Bruce Loose e Krist Novoselic no palco com o Flipper. Copyright 2007 Anthony Rigano.
Mp3 gratuita do Flipper tocando "Way of the World"
Way Of The World — Copyright 2007 (Reppilf Music) [Exclusivo para o Seattle Weekly]

Download pelo Rapidshare
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Ouvi punk pela primeira rock vez em 1979. A rádio KZOK, de Seattle, tinha nas noites de domingo um programa chamado "Your Mother Won't Like It" ["Sua Mãe Não Vai Gostar Disso"]. O programa destacava músicas de ouvintes, que viravam os verdadeiros DJ's. Numa noite um dos convidados apareceu com uma tonelada de Punk Rock! Músicas dos Sex Pistols, Ramones, The Wierdos, junto com um monte de outras coisas da primeira onda do punk. Gravei a maior parte do programa numa fita cassete que até se estragou de tantas vezes que eu coloquei para tocar.

Por muitas razões, minha próxima dose de Punk aconteceu uns três anos depois com o movimento do American Hardcore. Buzz Osborne, um novo amigo meu que era de perto de Montesano, me trouxe alguns dos seus discos de Hardcore. Buzz também tinha uma banda chamada Melvins.

Um grupo que surgiu na Bay Area [região de São Francisco, Califórnia] foi o Flipper com seu álbum Generic. Admito que não sabia o que pensar quando ouvi o disco pela primeira vez. O som era sombrio e tinha uma produção com pouca definição, mais parecida ter sido gravado durante uma apresentação ao vivo. Foi ao ouvir pela terceira vez que me veio uma grande epifania. A música me levou a um universo onde o triste e o desanimador se tornavam algo lindo. Percebi que o trabalho era tão pesado e transcentente como qualquer coisa do alto escalão do rock. A convenção do mainstream estava quebrada. O Flipper era tão esquisito e perigoso para o mundo. E se o mundo não os entendessem, isso era apenas mais uma perda para a humanidade.

O Flipper foi uma banda proto-grunge. O som era sujo e lento: uma grande influência para as bandas de Seattle do final dos anos 80 e início dos anos 90. Kurt Cobain usou uma camiseta do Flipper ao vivo no Saturday Night Live. Me lembro de ter visto um adesivo da banda num furgão da Chevrolet do Soundgarden.

A estrutura das músicas era bastante básica. Cada melodia tinha apenas uma ou duas partes. Um arranjo típico era a forte linha de baixo, bateria firme e uma guitarra díssona, desafinada, distorcida. As letras falavam sobre alienação pessoal, anti-autoritarismo, ou as duas coisas. E havia muito senso de humor, também! A banda gravou dois discos nos anos 1980, incluindo o seminal Generic e Gone Fishin'.

A banda chegou ao seu limite - para o bem ou mal. Em dezembro de 1987, o co-vocalista e baixista Will Shatter sofreu uma overdose e veio a falecer. O guitarrista Ted Falconi, o baterista Stephen Depace e o vocalista/baixista Bruce Loose se separaram por algum tempo. Voltaram à ativa em 1993 com o novo álbum American Grafishy. Tragicamente, em 1995, o baixista John Dougherty teve o mesmo destino de Shatter e o Flipper passou a viver um novo momento de hiato.

Loose, Depace e Falconi se reuniram em 2005 com o baixista Bruno DeSmartass para liderar um movimento beneficente a favor da casa CBGB's, de Nova York. Depois de alguns shows, Bruno deixou a banda para cuidar de seus próprios negócios. (Uma pausa para quebrar algum tipo de maldição contra os baixistas da banda.) Em 2006, a pedido de Thurston Moore, o Flipper foi tocar no festival All Tomorrows Parties, no Reino Unido. Foi aí que fui convidado para tocar baixo no grupo.

Depois do festival, seguimos em turnê pelo Reino Unido, e na Irlanda abríamos para os Melvins. Foi muito divertido. Depois do tour, quis continuar tocando com os chapas, mas não tinha o desejo de pertencer a uma banda nostálgica. Então, começamos a tocar coisas novas. Houve uma faísca de inspiração com o grupo. Jack Endino gravou o novo disco e agora estamos em processo de mixagem.

2008 está moldado para que seja uma etapa de re-aparecimento do Flipper. Para segurar a ansiedade dos fãs, incluí aqui na coluna uma faixa nossa ao vivo para o seu prazer. A música é Way Of The World. A canção foi gravada por Jack Endino na casa Funhouse, em Seattle, no último mês de agosto. Espero que traga tanto prazer ao ouvir quanto me trouxe ao tocar.

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